Palacete assobradado

Rocco e eu

Há algum tempo, fui com a Gi a um bar. Como não havia lugar vago nas mesas, ficamos apoiadas no balcão, bebendo uma cerveja e jogando conversa fora. Depois de um tempo olhei em volta e vi um homem sentado no fim balcão, bebendo sozinho. Era Rocco. Agora sei o nome dele porque, assim que percebemos sua presença, fizemos uma rápida aposta para ver quem teria coragem de ir até lá e puxar um assunto. Como sou o Id, nem foi preciso muito para que eu me oferecesse - apenas uma bohemia weiss.


Rocco era um desses homens transparentes. Não porque fosse franco demais, mas porque era quase imperceptível. Foi um feito heróico termos notado que aquele homem existia ali, num canto, entre um copo e uma parede.


Aparentemente, Rocco era um horizonte de novas experiências, uma fonte inesgotável de situações losers, aquele tipo de situação capaz de nos provocar um interesse muito particular.


A despeito de toda essa expectativa, quatro minutos depois, o papo acabou.


O papo acabou, mas os dois ainda insistiam em uma conversa. Estavam dispostos a ficar a noite toda conversando, inventando novas teorias, imaginando situações engraçadas, contado piadas. Mas o papo acabou e o silêncio permaneceu.


Dez minutos depois eu ainda estava ali. E Rocco com aquele olhar receptivo. O que me fez ficar mais dez minutos ali foi a porra do olhar receptivo. Se Rocco fizesse uma cara de desprezo eu caía fora sem maiores dramas. Mas não. Continuava com o maldito olhar receptivo. Custava fingir um desinteresse? Custava?


Fiquei com raiva.


Quando caí fora senti terríveis dores na consciência. O cara ali, morrendo de vontade de conversar e eu o abandonei. Definitivamente aquilo não poderia ser normal.


Agora tenho a certeza de que descobri uma nova doença: a síndrome da falta de assunto.

Publicado em 13 de abril de 2004 às 17:00 por helena cogumelo

Comentários

    • Estadão e Veja dizem solucionar esse problema (pelo menos nas propagandas).
    • por Moreiras
    • 13.Abr.2004 às 17:20 - Permalink - Reportar
    Moreiras
    • olha, o rocco que eu conheço não costuma conversar muito. suas conversas duram tempo suficiente para que ele possa entrar em ação.
    • por vidal - rocco sifredi´s closest friend
    • 13.Abr.2004 às 17:27 - Permalink - Reportar
    vidal - rocco sifredi´s closest friend
  1. helena cogumelo
  2. digao
    • Eu devia estar muito bêbada para não lembrar da cara receptiva do Rocco.
    • por gianna
    • 14.Abr.2004 às 17:59 - Permalink - Reportar
    gianna
  3. fernando garbin
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