Há algo de terrível quando a gente encontra uma quantia de dinheiro no chão. Principalmente quando a quantia não é pequena: 151 reais.
Um conflito se cria logo que a pessoa bate o olho no dinheiro e diagnostica: “Opa, é grana!”
Imediatamente surgem as duas figuras arquetípicas básicas, presentes em todas as decisões importantes que um ser humano precisa tomar: o anjinho e o diabinho.
O anjinho começa argumentando que alguém se ferrou muito porque perdeu o dinheiro. O diabinho contra-argumenta que achado não é roubado, quem perdeu que é relaxado - o que me parece fazer muito sentido, praticamente uma verdade universal.
Então o anjinho começa a enviar imagens para a mente do pobre humano. Uma pobre velhinha que acabou de sacar sua aposentadoria, foi comprar umas maçãs para fazer uma torta e agradar sua netinha, acabou perdendo o que seria sua única fonte de renda para os próximos 29 dias. Tudo escoa pelo ralo com uma única afirmação do diabinho: Se você for perguntar, qualquer pessoa dirá que é dona do dinheiro. E contando com a ambição da maioria das pessoas, catei o dinheiro do chão e fui embora.
A verdade é que esse dinheiro me atormenta. Quando a esmola é demais, o santo desconfia. E eu que não sou santa nem nada, tenho motivos de sobra para desconfiar desse golpe dado pela sorte.
Publicado em 19 de maio de 2004 às 15:27 por helena cogumelo