Outro sonho vindo do limbo onírico da mente doentia da Helena.
Então eu estava andando numa paisagem ocre, totalmente estéril. Parecia um deserto plano, com um sol alaranjado, mas sem os inconvenientes de um deserto - eu não sentia calor, nem sede, nem cansaço. Caminhava em direção à linha do horizonte, olhando para o chão, já conformada com idéia de nunca mais voltar a ver uma feição humana novamente. Continuo andando e começo a pensar que, em breve eu esquecerei de como é um rosto humano. Do corpo não me esquecerei, sei como é, posso enxergar meus braços, minhas pernas. Mas o rosto fatalmente já esqueci. Agora já não sei mais interpretar a ironia de um sorriso, nem reconhecer o medo ou o desejo em um olhar. Tenho a impressão de que não preciso mais do meu corpo, virei apenas uma corredeira de pensamentos (nesse momento há uma auto-censura, por achar que esse sonho está muito tibetano). Estou perdendo tudo isso por falta de um espelho, penso. Se ao menos houvesse uma outra pessoa...
Levanto a cabeça e enxergo bem ao longe, o que parece ser uma pessoa (como sou óbvia!). Na esperança de rever traços fisionômicos, corro. Um calor me sobe pelas costas, minhas mãos esfriam. À medida que me aproximo do homem, acelero ainda mais o passo. Quando finalmente chego muito próximo ao homem, que estava de braços abertos, tomada pela emoção, resolvo dar um pulo e me jogar em seus braços. Nesse momento compreendo como ninguém a expressão “o último homem da face da terra”. Pulo em seus braços e tropeço em sua indiferença. Caio e o homem continua lá, parado como um espantalho.
Moral da história: esse cara não ficaria comigo nem que eu fosse a última mulher da face da terra.
Publicado em 10 de agosto de 2004 às 11:57 por helena cogumelo