Microcrônica de Carlos Seabra:
Veio a chuva e a cidade encheu, as ruas e as casas alagaram,
os rios subiram e sua popularidade afundou.
***
Ocorreu já há algum tempo, quando eu esperava o ônibus para ir à faculdade. Era o último dia letivo do semestre. Não iria estudar, muito menos assitir aula, nem entregar trabalho. Um motivo mais nobre me chamava ao caminho da Floresta - uma vinhada.
Parada no ponto, percebo uma mulher se aproximando. Quando chega perto, me pergunta as horas. Sete e meia. Ainda dia claro. Ela sorri de modo estranho, meio não-querendo, meio por-educação. Um vizinho passa do outro lado da rua e me cumprimenta. Resolve atravessar a rua para me dar um abraço, Faz tempo que a gente não se vê. Comento sobre a vinhada. Ele comenta sobre a festa da Belas Artes. É sexta-feira. Ele vai embora. Eu continuo esperando.
O celular da mulher toca. Já to indo. Já começaram a beber? Compraram quantos barril? Vou passar em casa, tomar um banho. Saí tarde do trabalho. Tudo bem. Desliga. Desatino a falar - coisa que não é do meu feitio.
Vai festar também? É, sexta-feira né, tem pagode na lanchonete; você também vai beber, pelo jeito.... Vou sim, festa na faculdade. Faz faculdade de quê? Jornalismo. Trabalho ali na Tuiuti, faxineira.
Bem arrumada, a mulher é vaidosa. Ajeita o cabelo com a fivela. Negra bonita.
Onde você mora? Ah, lá no Santa Cândida, depois do terminal ainda pego o biarticulado. Onde é a faculdade? É no Juvevê. Olha só, já é o terceiro ônibus que passa pro outro lado, e aqui nada...
O ônibus chega. Ocupo um lugar sozinha. Ela senta logo atrás. Para minha surpresa, continuamos conversando. Ela toma as rédeas da conversa.
Tem gente que é apressada pra sentar né. Hoje de manhã, quando eu vinha no interbairros, lotado, duas mulher saíram no tapa por causa do banco. Isso que era de manhã, imagina se fosse seis da tarde! Credo, esse povo já acorda cansado!
Segunda feira então, as mulher conversando, vem falando no ônibus lotado, conversando de tudo que aconteceu no fim de semana, com quem dormiu e tudo. Eu fico até envergonhada. Mulher contando que o namorado tinha levado ela no motel, deu calcinha vermelha de renda prela usar. Falou até que o home tinha bilau pequeno. O cobrador que tava perto ficava só olhando.
Você mora com os seus pais? Moro. Quantos anos você tem? 21. Eu tenho 28, mas saí de casa com 18. Mas a minha mãe sempre vai lá em casa, arruma as coisa, eu falo que não precisa, eu já tô noivando e a mãe ainda vai lá em casa, faz pão! Moro do lado da lanchonete, onde vai ter o pagode hoje. A turma lá é animada. Pagode vai até o dia amanhecer.
Na conversa ela continua falando eu eu sigo os meus pensamentos. Olhando ela falar sobre as coisas triviais, conversa fiada, fico abismada com a concretude daquela criatura. Enquanto eu sou uma promessa, um projeto, a vida daquela mulher é concreta. Ela vive no real. Eu faço planos. Mas, daqui a pouco, nós duas estaremos bebendo com os amigos. Eu na vinhada. Ela no pagode. Tal conclusão me leva a crer que a essência está na bebida. Tudo bem, é uma conclusão precipitada e simplista, mas me convém, o qué que tem?
O ônibus chega ao terminal. Seu nome? Helena, e o seu? Jaqueline, foi bom te conhecer amiga!
Até a próxima.
Publicado em 20 de dezembro de 2004 às 15:10 por helena cogumelo
Algo que uma vez pronto se torna duro, dificil de moldar ou mudar. Prefiro viver na eterna construção, na maravilha de fazer planos sem fim e ser uma promessa nova a cada dia.
A essencia não é a bebida, mais sim o fato da “coragem” que ela dá pra pensarmos, falarmos e fazermos o que quisermos sem se importar com influências externas, que vem do nosso próprio preconceito de nós mesmos.
Bebados todos parecemos igualmente fracos, enquanto sobrios..............