Ah, os homens falam mesmo. Esses dias resolvi só ouvir, sem falar nada. Fiquei três horas ouvindo reclamações, angústias e tudo. O homem que serviu de cobaia para a minha experiência ouvinte, eu queria saber até quando ele ia conseguir continuar falando e falando, ele nem se importava se eu estava ouvindo de verdade, mas eu estava ouvindo sim, a cada palavra eu retribuía com uma feição mais interessada até que ele começou a achar que estava fazendo sucesso comigo contando suas besteiras, e as besterias eram realmente um saco, mas na minha experiência acabei achando legal saber de tudo. Quanto mais confiante o homem ficava mais ele falava sem pensar, o filtro de bobagens foi diminuindo e ele começou a falar mesmo sem filtro algum, porque eu não censurava nada que ele dizia por mais mané que pudesse parecer, eu apenas ouvia interessada, e então começou a ficar realmente interessante o fluxo dos pensamentos que o homem tinha e comecei a pensar o que uma coisa tinha a ver com a próxima coisa que ele contava. As coisas se intricavam de forma muito interessante, pareciam as histórias da Sherazade, uma história levava a outra, e elas nunca terminavam completamente. O homem nunca se cansava e eu não conseguia parar de ouvir, ficava tentando imaginar qual seria a próxima coisa que ele diria, a qual cena ele remeteria depois, o homem era o homem de todos os assuntos, incrível como uma pessoa pode guardar tantos assuntos dentro de si e olha que nem era uma homem tão culto assim, que a gente dissesse esse aí já leu muitos livros não. Será que as pessoas todas conseguem contar uma história como a dele, ter passado por tantas coisas insignificantes e tão vulgarmente interessantes? Em uma das histórias que ele contou, o homem estava tomando banho e de repente um gato passou pela janela do banheiro e ele gritou assutado. O grito dele que morava no décimo primeiro andar acabou assustando o pobre do gato que escorregou e caiu lá embaixo. Como a gente sabe os gatos caem de pé mas não adianta muito cair de pé de uma altura como onze andares, se estrepou da mesma forma, quando ele viu o gato estatelado aí que gritou mais forte ainda e desceu assim mesmo enrolado numa toalha para ver se o gato tinha conseguido cair de pé, é lógico que ele não conseguiu, se conseguisse a dona poderia colocar o gato no livro dos recordes imagina? o gato que caiu de uma altura gigantesca e conseguiu sair andando. a mulher viúva dona do gato quis que o homem pagasse outro gato porque era um gato angorá com pedigree e tudo, que ela tinha ido buscar no gatil com sangue persa e não sei mais o que depois que a mulher tinha ido na casa de uma amiga que lhe contou como os gatos são criaturas com personalidade e ela quis ter um gato também. ela achou estranho ter um gato num apartamento porque os gatos, como se sabe, são muito independentes, e ele não teria espaço para andar por aí mas então descobriu um tipo de raça que é mais caseiro e começou a conversar com o marido para que ele aceitasse a idéia de ter um gato em casa. o marido era uma pessoa muito conservadora não queira saber de novidades até porque ele era funcionário público e todos os dias ele saía de casa no mesmo horário, ele nem precisava mais olhar o relógio. até o horário de verão ele já sabia quando começava e quando terminava, só observando sua própria rotina, muito observador o marido da dona do gato. ele sempre batia o ponto às oito e vinte e dois oito e vinte dois oito e vinte e dois, quando a mulher trouxe o gato ele, que era observador, mas também já estava ficando velho não observou mais direito e tropeçou no rabo do maldito gato e acabou chegando no trabalho e batendo o ponto às oito e vinte quatro meu deus oito e vinte e quatro oito e vinte quatro e aquilo foi um choque tão grande que o homem se jogou do décimo primeiro andar justamente da forma como o gato repetia agora. o homem ficou ressabiado pensando se ele tivesse assustado o marido da dona viúva do gato, se ele teria que pagar um marido novo para ela, ou pelo menos o enterro e a vaga no cemitério. se tivesse que ir no enterro não iria não, tinha pavor de cemitério, seria mais fácil jogar o marido no lixo assim como ela fez com o corpo do gato estatelado. se ela ainda morasse em casa com quintal para poder enterrar o companheiro, mas não tinha jeito, em apartamento, o que posso fazer? tive que jogar no lixo mesmo.
Publicado em 25 de março de 2005 às 21:57 por helena cogumelo
e vc ficou ouvindo esse papo por horas?
só vc helena, sério. rs...