Palacete assobradado

Não acaba nunca mesmo

se ela ainda morasse em casa com quintal para poder enterrar o companheiro, mas não tinha jeito, em apartamento, o que posso fazer? tive que jogar no lixo mesmo. eu costumava morar em casa mesmo era muito mais tranquilo, a gente tinha menos vizinhos mas conversava com eles, conhecia, ia contar a nossa vida, os vizinhos eram pessoas que nos ajudavam. agora depois que mudei para esse apartamento não tenho contato mais com ninguém, veja só você mesmo, só vim conversar com você porque meu gato caiu, senão seríamos completamente desconhecidos! os vizinhos protegem a gente, tem pessoas que não têm com quem contar, só com os vizinhos. sem vizinho a gente fica muito só. um vizinho meu que morava na vila madalena comigo era obeso mórbido sabe, não tinha ninguém na vida. eu ia sempre conversar com ele, que pelo menos, enquanto conversava ele não comia. um dia ele resolveu que ia se mudar para um apartamento, ele já estava com 180 quilos! a filha dele, visitava de vez em quando, mas cada vez que ela ia lá ele estava vinte quilos mais gordo, então resolveu parar de visitiar para ver se ele parava de engordar. ela contratou um moço para cuidar do pai e nunca mais apareceu. só que ela não sabia que o moço, coitado, era epilético, uma vez o moço teve um ataque enquanto ia ao supermercado para fazer as compras para o gordo, e acabou sendo levado para um hospital psiquiátrico, nunca mais conseguiu sair do hospital. o gordo então, sem ter ninguém para trazer comida, começou definhar, chegou um dia em que a única coisa que ele tinha na vida pra comer era um bombom sonho de valsa e o gordo foi comer o bombom, só que ele não tinha forças nem para sentar ele comeu o bombom deitado mesmo. o gordo salivou tanto, mas tanto que acabou morrendo afogado com a própria saliva. mas isso nem foi o pior da história, o pior foi que o gordo, sozinho, não tinha ninguém pra sentir falta dele, morreu sozinho no apartamento, só acharam o gordo uma semana depois, quando começou a feder muito, mas muito mesmo. o fedor era tão grande que os vizinhos do andar de baixo resolveram se mudar para uma casa, não aguentaram mais morar em apartamento! A família se mudou tão às pressas que acabou alugando uma casa muito podre, caindo aos pedaços. teve gente que dizia que a casa era mal assombrada porque a viúva que morava lá antes tinha enterrado o marido no quintal, porque não tinha dinheiro pra fazer o funeral. a velha morreu depois que tropeçou na cova. a cova tinha ficado aberta porque a velha, coitada não tinha forças para pegar na pá, ficou tão deprimida com a morte do companheiro que não conseguiu fechar a cova. todo dia ela ia até a beira da cova e colocava mais flores, pra tentar abafar o fedor que saía daquele lugar. um nojo. voce sabe que os mexicanos têm uma superstição que, no dia dos mortos, eles batem na cova pra sair, mas como estão enterrados não conseguem sair, então fazem uma festa no underground mesmo. só que o morto, como não estava com a cova fechada, acabou foi saindo da cova. e não quis mais voltar. no dia de los muertos, o esqueleto saiu por aí, com as flores todas enganchadas nas costelas, na clavívula, na bacia. se assustou a criançada? que nada! a criançada foi ainda zoar com o moço magrinho todo decorado que apareceu na rua! os cachorros começaram a correr atrás do morto, vixe, todos querendo um ossinho para roer, que os cachorros também merecem comer um pouco melhor num dia especial, assim como a gente come bacalhau na sexta-feira da paixão, os bichinhos também querem comer bem.

Publicado em 27 de março de 2005 às 13:50 por helena cogumelo

Comentários

  1. flipper
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