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29 April 2005

Na segunda pessoa


Você chega em casa e o que acontece? Seu sofá está ocupado por uma pessoa que não é você. Você saiu de casa antes do sol se pôr e agora volta dessa forma, sem ao menos ligar para você. Para quê ligar para mim? Eu moro sozinho! Exatamente. Só porque mora sozinho não quer dizer que não tenha que avisar antes de chegar em casa! Agora veja só o que aconteceu: essa pessoa está na sua casa, sua cama está desarrumada, seus livros, esparramados pelo chão. Quem é essa pessoa? Não, não é você. Você sabe exatamente o que acontece na sua casa porque quando se mora sozinho, você sabe cada coisa que faz, sabe que tomou banho e deixou a toalha molhada sobre a cama, você não tem ninguém para culpar, porque você é a única responsável pelo lixo que a sua casa está, você sabe que aquela xícara suja de café sobre o criado-mudo está lá há três dias e você sabe também que, quer dizer, da sua casa você só não sabe onde foi parar o par daquela meia tão boa para usar no frio. Uma meia de algodão que esquenta o pé e as canelas, aquela meia grossa que serve quase como uma pantufa para usar dentro de casa, aquela que você usa durante vários dias, e ela fica preta em baixo, com coisas grudadas porque você acaba usando a meia para colocar o lixo para fora, com preguiça de colocar um chinelo, afinal, é só descer as escadas. Mas as escadas, apesar de parecerem limpas, estão sujas e sujam suas meias. De qualquer forma, agora você não vai mais usar aquelas meias porque não sabe onde está o par. Outra coisa que você não sabe é quem é esta pessoa no sofá? Não é você. Não é você? Não, não é VOCÊ! Não é você porque você gosta de morar sozinho, gosta de ficar sozinho em casa, gosta de ouvir o silêncio, gosta de colocar um dvd e assistir tudo sem ter ninguém para pedir explicações, para fazer comentários impertinentes e se fosse você a pessoa sentada ali no sofá, não existiria alguém olhando parado na porta. Se fosse você, VOCÊ estaria ocupando aquele lugar e não aquela pessoa ali. Mas se você estivesse sentado no sofá, estaria olhando para a pessoa que entrou e estaria se perguntando o que você faz ali, parado na porta sem dizer palavra? Melhor não dizer nada, você vai esperar a pessoa se mover, talvez ela diga alguma coisa. Sim, ela vai ter que dizer, porque você não dirá nada, afinal, para todos os efeitos, você mora sozinho e pessoas que moram sozinhas não saem por aí conversando consigo mesmas, não em voz alta pelo menos e não olhando para uma outra pessoa, a menos que você esteja na frente de um espelho e esteja se preparando para sair. Nesse caso, você fala coisas consigo mesmo, e em voz alta que é pra se convencer de que você vai sair e vai ser legal e finalmente, se tudo der certo, você terá uma esperança de encontrar uma pessoa bacana que faça comentários interessantes enquanto estiverem assistindo a um dvd juntos, bebendo café. Uma pessoa que ache engraçado ver você com essas meias sujas, que assuma a culpa por ter deixado a xícara suja sobre o criado-mudo, que rompa o silência da sua casa para reclamar da toalha molhada sobre a cama. Uma pessoa que finalmente saiba onde você colocou o par daquela meia que você estava procurando há meses. Aquela meia tão boa para usar no frio.

22 April 2005

Aiai


Como dói!

20 April 2005

De um em um, num pé só, até chegar no céu!


Jogo da amarelinha
Capítulo 7

Toco a sua boca, com um dedo toco o contorno da sua boca, vou desenhando essa boca como se estivesse saindo da minha mão, como se pela primeira vez a sua boca se entreabrisse, e basta-me fechar os olhos para desfazer tudo e recomeçar. Faço nascer, de cada vez, a boca que desejo, a boca que a minha mão escolheu e desenha no seu rosto, e que por um acaso que não procuro compreender coincide exatamente com a sua boca, que sorri debaixo daquela que a minha mão desenha em você.

Você me olha, de perto me olha, cada vez mais de perto, e então brincamos de cíclope, olhamo-nos cada vez mais de perto e nossos olhos se tornam maiores, se aproximam uns dos outros, sobrepõem-se, e os cíclopes se olham, respirando confundidos, as bocas encontram-se e lutam debilmente, mordendo-se com os lábios, apoiando ligeiramente a língua nos dentes, brincando nas suas cavernas, onde um ar pesado vai e vem com um perfume antigo e um grande silêncio. Então, as minhas mãos procuram afogar-se no seu cabelo, acariciar lentamente a profundidade do seu cabelo, enquanto nos beijamos como se tivéssemos a boca cheia de flores ou de peixes, de movimentos vivos, de fragância obscura. E se nos mordemos, a dor é doce; e se nos afogamos num breve e terrível absorver simultâneo de fôlego, essa instantânea morte é bela. E já existe uma só saliva e um só sabor de fruta madura, e eu sinto você tremular contra mim, como uma lua na água.

Júlio Cortázar

17 April 2005

Nãopára, nãopára, nãopáranão


Vai descendo até o chão. Vai descendo até as profundezas da não-dignidade, quando você já não está sentindo a ponta do seu nariz e a sua boca é um pedaço de bife mole e inerte, e os seus dentes já estão secando, sem saliva, de tanto dar risada tresloucadamente.

Desce bem devagarinho, que é pra todo mundo ver a derrocada da elegância, a maquiagem escorrer pelo canto dos olhos, os pés descalços ganharem uma crosta negra formada por restos de bebidas, guardanapos, plumas e, ainda sim, continuarem a pular sobre cacos de finas taças estilhaçadas pelo chão.

Mão na perna, mão no peito, agora mão na capota do carro que é pra se escorar e vomitar com um pouco de conforto. O fim da festa é cada vez mais fascinante.

14 April 2005

É o projeto da casa, é o corpo na cama


De manhã acordo atrasada para a aula. No caminho escuto no rádio uma entrevista com uma psicóloga falando sobre a “síndrome do adiamento”, que nada mais é que um nome clínico para a “preguiça”. A síndrome é uma doença típica de quem fica se sabotando, deixando para depois o que pode fazer agora. Inclusive, disse a psicóloga, o medo de amar e de se entregar às situações também é uma forma de adiamento. A pessoa chega a uma certa altura da vida, está solitária mas não sabe ao certo o porquê.

Eu, como boa psico-hipocondríaca que sou, já começo o tratamento. Planejo todo meu dia para que consiga fazer tudo o que não fiz em meses de enrolação. Hoje eu tomo uma atitude! Hoje vou ligar para aquela pessoa e dizer tudo o que penso e o que sinto e vou convidar aquela outra pessoa para almoçarmos juntos e também vou fazer uma limpa naquela gaveta que está entulhada.

Quando chego na faculdade, a recepcionista que já me conhece pelo nome: “Helena, o professor Guto não vai dar aula hoje.” E me vem à cabeça todo aquele pensamento acordei cedo para nada como a minha cama estava especialmente boa hoje de manhã que droga tão fofinha e quentinha.

Imediatamente esqueço toda essa história de síndrome. Definitivamente desse mal eu não padeço: por que eu me sabotaria se já tem tanta gente fazendo isso por mim?

O resto do dia eu passei na cama, de camisola, ouvindo Elis e Tom.

12 April 2005

Considerações que eu faria à amiga exilada Gianna


Antes começar esse post preciso fazer uma observação tardia. Um amigo diz ter encontrado o fim da internet. Tenho de dizer que o buraco é mais embaixo, principalmente levando-se em consideração os temidos FLOGS.

Dá uma acessadinha.

***
Agora sim, vamos ao post.

Na praça Osório passei por uma barraquinha de caldo de cana. Uma faixa de três metros de comprimento informava em letras rosa-choque com verde-limão que “nossa cana vem do município de Adrianópolis, divisa com São Paulo” (grifo em Adrianópolis).

Não sei o que é pior: tomar caldo de cana junto com caldo de barbeiro ou beber caldo de cana contaminado por rejeitos da extração de chumbo.

***

Mais à frente, na Boca Maldita, o mágico Luciano Pasquali permanece numa redoma de policarbonato, a 20 metros do chão, sem comer. Ele quer quebrar o recorde mundial de 72 dias sem se alimentar.

Ele vai acabar quebrando é o recorde mundial de suportância* a grupos de bolivianos zapoñeros tocando Guantanamera.

***

Ainda pela XV, depois de passar por esses dois momentos, saco minha caderneta e começo a fazer anotações assim, andando mesmo que é pra não esquecer a forma dos pensamentos. O mala do “você gosta de poesia?” resolve encarnar. “Ei moça! Você da anotação!”. Ignoro. Ele insiste com uma certa dose de raiva, “Eiei! você mesma de vermelho!”.

Escrever andando não me parece ser o modo mais confortável de se anotar coisas. Provavelmente uma pessoa que está anotando e andando ao mesmo tempo é porque tem algo na cabeça que não pode esquecer e não pode sequer esperar até próxima parada para anotar. Agora me responda: por que alguém deixaria de anotar-e-andar para dar atenção a alguém que vem oferecer algo que todo mundo já sabe do que se trata?


* Manu Consultoria Lingüística LTDA.

10 April 2005

Domingo ensolarado


Bohemia Weiss no copo, novo do Moby. Você pediu pra eu reservar um lugar para você. Mas você não apareceu. Se aparecesse ia ver que seu lugar já estava ocupado. Ainda tem um outro lugar reservado. É, por pouco tempo. Vi uma entrevista na qual três meninas loucas que fazem um zine dizem que os homens estão muito folgados. E estão mesmo.

Resolvi ser uma garota à moda antiga. É, por pouco tempo. Afinal, garotas à moda antiga não devem beber cerveja sozinhas em casa.
Elas bebem vinho. E acompanhadas.

***

Chega dessa vida de organizar coisas.
Quem é que vai ME organizar?

***

É muito mais fácil ser uma garota à moda antiga. Você senta e espera o seu príncipe encantado enquanto aprende coisas como crochê, tricô e ponto cruz.
Não precisa parecer legal e descolada o tempo todo, apenas precisa de um sorriso morno all the time. Nada de sentimentos muito extremos. Nada de gargalhadas. Choro só no banheiro e bem devagarinho - uma lágrima por vez, para não inchar os olhos.

09 April 2005

Pelas tabelas


Claro que ninguém se importa com minha aflição.

05 April 2005

Tá chegando a hora


Check list final

Almoço dos palestrantes - certo
Assessoria - ok
Banner - cadê o BANNER?
Batata suíça - confirmada
Cabos RCA blindados - prontos
Camisetas - lindas
Cartazes - prontos e certos dessa vez
Coletiva - organizada
Entrevista na Educativa - afe
Edição do material - ok
Neosoldina - não confirmou ainda
Nervosismo - ok
Progamação - confirmada
Público - não confirmado
Tensão - já chegou
Vinhetas - tá beleza
Zé Mojica - tchupitchura!


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03 April 2005

Telefone sem alça


Quando fico com dor de cabeça tenho um comportamento típico de pessoas que estão bêbadas: o costume de telefonar para os amigos.

Mas não são telefonemas comuns. São telefonemas para falar coisas típicas de bêbados, coisas que demandam uma certa coragem para serem ditas.

Talvez eu deva achar que, só porque eu tenho uma enxaqueca absurda que me distorce a visão (literalmente), todos têm a obrigação de falar comigo.

Ultimamente, desconfio que estão flagrando esse meu comportamento e, por isso, acontece o que aconteceu ontem: nenhuma das pessoas para quem eu liguei atendeu o telefone.