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31 May 2005

Farsante


Quando será que você vai perceber que eu sou uma farsa?
Que, por trás dessa voz aparentemente segura, há um nó permanente pronto a desdizer tudo o que disse?
Que muitos dos meus gostos foi você que me disse para ter?
Que as minhas bandeiras são de papel e se desmancham na chuva?
Que aquele encontro “casual” foi completamente premeditado?
Que meu ar de misteriosa serve apenas para ocultar minha falta de conteúdo? (Pra quê ocultar se não há nada a ser revelado?)
Que invariavelmente sempre me emociono com a homenagem aos pais de TODAS as formaturas?

E quando isso acontecer, você ainda vai me querer?

30 May 2005

(Sem título)


Duas Naipis se batizaram na foz do rio Iguaçu. As águas do rio, comovidas com a beleza das índias, tentaram abraçá-las. Trovão. É inútil, são inatingíveis.

Acabaram carregadas por uma puta de luxo direto para a realidade do tempo e da distância.

25 May 2005

Da ortografia pornofágica

Post em homenagem à Lea!


Palavrão que é palavrão, tá boca do povão!

Ou seja, cu que se preze tem acento mesmo - CÚ.
Boceta bem gostosa é uma BUCETA.
Tesão também, quando é tesão mesmo já vira TEZÃO.

E mais não digo porque estou arrumando as malas.
¡Frontera, aquí me voy!

23 May 2005

Manifesto Pornofágico


Cu, caralho, buceta. Essas e muitas outras palavras estão sofrendo de ampla discriminação. Às vezes são até ignoradas por boa parte da população (você sabe o que é uma cona?). Pessoas que xingam o chefe de filho da puta, mas fingem que não falam “nome feio”. Não menstruam, ficam “naqueles dias”. Trepam, fodem, mas “fazem amor”. Têm buceta, mas não têm nem coragem de falar o nome. Gozam com uma puta e a tratam mal, como se as putas fossem a escória da humanidade.

Como o Blogumelo está aqui para fazer as pessoas terem uma vida mais feliz e serem sexualmente mais saudáveis, conclamo meu colegas de blogs a democratizarem o uso de tais palavras nos próximos dias.

Vamos escandalizar os puritanos!
Vamos democratizar o vocabulário da fodeção!
Pornófilos do Tipos, uni-vos!
Participem da I Semana de Pornografia Típica e façam os posts mais cabeludos da internet!

Como inspiração, transcrevo aqui um poema de Drummond.

A Língua Lambe

A língua lambe as pétalas vermelhas
da rosa pluriaberta; a língua lavra
certo oculto botão, e vai tecendo
lépidas variações de leves ritmos.

E lambe, lambilonga, lambilenta,
a licorina gruta cabeluda,
e, quanto mais lambente, mais ativa,
atinge o céu do céu, entre gemidos,

entre gritos, balidos e rugidos de leões na floresta, enfurecidos

23 May 2005

Inconformada


Três milhões e duzentos mil olhos não me bastam. Três milhões e duzentos mil braços não me bastam. Um milhão e oitocentas mil bocas não me bastam.

Vou me escrever em uma carta e enviá-la pelo Sedex diretamente para as terras do além-dor.


19 May 2005

Spam


Acabei de abrir meu email especialmente criado para receber porcarias internéticas.

Em meio aos tradicionais Enlarge your penis um subject chamou minha atenção. Guia do orgasmo feminino! Pensei Graças a Deus um spam dirigido às mulheres!

Por pouco tempo durou a minha satisfação.
O texto do email:


Fique horas transando e enlouqueça qualquer mulher

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Realmente, além de ter um pau pequeno, eu preciso ter ereções mais duradouras.

18 May 2005

Tratamento dentário


Precisarei extrair os quatro sisos. Apenas um deles despontou e os outros contentaram-se em doer escondidos.

Engraçado quando se é amigo do dentista.
- E a mãe, está boa?
brocabrocabrocabrocabrocabrocabroca
- nnnha aunhser hunhanhunhoiu
sugadorsugadorsugadorsugadorsugador
- E você, como vai? Conseguiu estágio?
cutucacutucacutucacutucacutucacutuca
- aaanhunhi inhunhunha
esguichacospeesguichacospeesguicha
- Ah, mas é difícil mesmo. Te falei que minha sobrinha faz jornalismo?
cospe
- nhaum
chumaçodealgodãochumaçodealgodãochumaçodealgodão
- Nossa, você está escovando bem os dentes hein! Até esse aqui de trás está bonito.
trecolasertrecolasertrecolasertrecolasertrecolaser
- nha erdade nhu ô aendo
esguichacospeesguichacospeesguichagostoruim
- Pronto. Depois a tua mãe acerta aqui. Quer recibo?

Magnífico!
Nunca vi uma pessoa conversar sozinho assim, a dois, como esse dentista.

17 May 2005

Enigma


Antes do post:
Minha mais nova palavra preferida é “doidivanas”.

***

Tocava piano maravilhosamente. Deslizava entre as notas de marfim como quem caminha sobre as águas. Suas aptidões ao piano porém não foram suficientes para fazê-lo sobreviver.

Foi convidado para tocar para entreter passageiros de um transatlântico - magnatas do petróleo, xeques, empresários representantes da Yakuza, bilionários do ano da Forbes e as mais finas bucetas da alta classe. Pessoas de gosto e gorjeta. Quem sabe algum olheiro não o levaria para tocar em uma orquestra de verdade, estava cansado de protagonizar aqueles recitais mofentos na periferia de Dublin.

Cabine miserável. Não sabia como conseguiria continuar morando durante três meses nesse navio. Há dois meses sobrevivia sem compôr. Já não sabia onde guardar tantas notas. Escapavam-lhes das idéias, escorregavam por entre os dedos, por baixo da porta.

Começou colocando as gorjetas nos bolsos do fraque para apresentações de gala. No segundo dia de viagem já estava com os bolsos arregaçados como sacos de batatas. Decidiu então lascar o teto de sua cabine e esconder ali sua fortuna. Três semanas durou o esconderijo. Ao socar a última nota de cem dólares que cabia ali, imaginanou quantas notas existiriam naquele navio - onde será que os figurões guardavam suas fortunas? Armários? Arcas? Não, nada disso seria suficientemente grande para guardar o fruto das mesas de apostas do cassino transatlântico.

Sonhos entre notas e notas, faziam aumentar sua ambição e diminuir sua criatividade.
Uma noite caiu e, ao nascer do sol, o pianista não existia mais. Homem ao piano, homem ao mar. Sem documentos, sem memória, sem etiquetas nas roupas, sem marcas nos sapatos.

Os passagerios do transatlântico eram também fabricantes de crimes perfeitos.


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14 May 2005

Esquisitíricas


Hoje não vou sair
hoje vou preferir
andar pelo campo
dando tapinhas
nas caudas dos pianos

14 May 2005

Querida Miss Lonelyhearts,


Desculpe por estar escrevendo essa carta e tomando seu tempo porque sei que você é uma pessoa muito ocupada e esta carta deve ser um pouco longa demais. Talvez você possa me ajudar a saber porque essas coisas acontecem comigo, porque faz tempo que não consigo sorrir de verdade e parece que as minhas bochechas ficaram congeladas de repente depois que uma pessoa fez muito mal pra mim quando eu ainda era pequena. Me tornei uma pessoa muito compreensiva, mas as pessoas só me dão paulada atrás de paulada, ninguém valoriza aquilo que eu relevo. Esqueço as coisas que as pessoas me fazem de mal, mas ninguém é capaz de compreender como me sinto sufocada com as cobranças das pessoas, que acabam guardando muito rancor de coisas pequenas, ao invés de fazerem como eu faço e esquecer. Além de tudo isso as pessoas se aproveitam que eu sou desse jeito, muito compreensiva e acabam querendo que eu compreenda cada vez mais e pedem muito pra mim e eu tenho que relevar, porque não quero ser mesquinha e ficar guardando rancor, mas tem uma hora que a gente fica cansada de ser compreensiva. Muitas vezes eu sofro, por favor miss Lonelyhearts me ajude a saber se algum dia eu ainda vou ganhar alguma coisa sendo compreensiva com as pessoas. Porque se eu não for ganhar nada nunca acho que vou virar uma pessoa rancorosa e as pessoas vão ter que tomar mais cuidado comigo e não vão se aproveitar mais de mim.

Obrigada,
Compreensão-em-Pessoa.

12 May 2005

...


Acabo de voltar do James.
Aquilo me deu um mAll Star danado.

Saco.

11 May 2005

Pessoas terremóticas


Tem umas pessoas que me inspiram. São provocadoras de uma instabilidade inevitável. São o epicentro de um tremor que me desloca, me divide em duas - uma Helena que interage e outra que observa e pensa e registra e cuida para que nenhum momento seja esquecido. Não preciso nem conhecer direito a pessoa, apenas ficar ao seu lado já basta. Às vezes, só a lembrança dos trejeitos da pessoa terremótica já é o suficiente para me inspirar. Dou uma risadinha idiota e me ponho a pensar em planos, idéias, projetos.

A Gianna é uma pessoa terremótica para mim. Tem também uma menina caloura na faculdade, a Jaqueline, meu Deus. Que magnífico grau de terremoticidade! Aquilo sim é uma pessoa inspiradora. Se você quiser saber o que é uma pessoa terremótica, é só encontrar a Jaque. E olha que não troquei mais do que três palavras com ela! Ela tem um jeito inquieto, faz perguntas e ouve com uma atenção que transforma todo o resto do mundo em lixo. Tem uma aparência surfete, um pouco vaga, meio perdida, fora de foco, mas assim que começa a falar ela vai se definindo, vira uma pessoa nítida, tão nítida que seus limites são como lâminas que a destacam do mundo. Não sei muito sobre seus planos ou os motivos que a levaram a escolher esse curso. Toda vez que a enconto é um exercício divinatório para mim. Tento prever como ela será daqui a 4 anos, se o seu grau de terremoticidade será lentamente apagado, ou se se tornará ainda mais forte e mais definido.

Caso isso aconteça, terei que preparar algo para me proteger e impedir que eu me parta em mil pedacinhos quando a vir novamente.

09 May 2005

Senão não seria o amor


Um amigo uma vez me disse algo assim: Helena, não tenha medo de ser aquilo que o amor te leva a ser, porque é o teu melhor como ser humano.

Só pra eu deixar registrado aqui e não me esquecer da existência dessa frase.


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07 May 2005

Cadarço Catarse


Cadarço
substantivo masculino
1 fio ou cordão feito de borra de seda, de anafaia ou de outro tipo de seda não aproveitado na fiação ('operação de fiar'); barbilho

Etimologia
segundo AGC, prov. do esp. cadarzo (sXIII) 'id.', der. de um lat. *catharteum, este do gr. kathartéon '(seda) que deve ser purificada'

05 May 2005

Ação ou efeito de constranger(-se)


Eu fico constrangida a todo momento. Um senhor vem pedir um dinheiro para o café, eu não sei como agir. Fico constrangida. O bibliotecário me elogia, não sei o que fazer, não o agradeço, não sorrio, não nada. Fico constrangida. Uma velhinha escorrega e cai na minha frente, vou ajudá-la e, sem saber o que falar, eu vou ficar constrangida. Se o homem de muletas não consegue passar pela porta giratória do banco e provoca uma fila de espectadores, fico constrangida. Se tem alguém com vestido curto de veludo numa festa “passeio completo” eu fico constrangida. Alguém não aceita o panfleto do moço na rua XV, constrangida de novo. Uma amiga minha leva um fora, eu fico constrangida. Assistindo a uma peça de teatro ruim, fico constrangida. Quando um cego entra no ônibus, quando uma criança com nariz sujo sorri para mim, quando aquele mendigo com as espumas nos joelhos me estende a caixa de sapato com algumas esmolas, eu fico constrangida. Fico constrangida quando a minha vó comete erros de português. Quando o Léo Batista erra o texto do TP eu fico constrangida (mas só com o Léo Batista). Quando há duas pessoas me dirigindo a palavra e eu não sei para qual delas dar atenção, nossa, como isso me constrange! Quando meu irmão me diz que foi mal na entrevista e não conseguiu o estágio eu fico muito constrangida.

E depois de todos esses constrangimentos provocados pelas situações que me deixam sem saber o que dizer, frequentemente eu sinto vontade de abraçar.

02 May 2005

O que é o que é?


Não sei o que é mais degradante:

Ver você de sunga alaranjada coberto de sal e areia ou vestido com uma camisa de manga longa, socada por baixo de um par de ceroulas, que por sua vez estão socadas sob um par de meiões de futebol de algodão felpudo.


01 May 2005

Outono


Estou adorando fazer esses posts ocultos, aos quais somente eu tenho acesso! Vou sugerir à Abigail que faça essa experiência.

Viver em Curitiba é ótimo, especialmente no outono. Um céu azul, um vento cortante e constante, pessoas elegantes, dentro de casacos de lã, sob cachecóis, uma luz branca e claríssima nos ilumina e nos afasta dos dias amarelados e saturados de verão.

Você vai à biblioteca emprestar alguns livros e pode ficar sentada num banco da praça Santos Andrade observando as pombas, as putas diurnas e os carrinheiros enquanto espera a próxima sessão do Cine Luz para assistir a um filme do Jim Jarmusch. Você pode encontrar ocasionalmente seis amigos numa sessão na qual foram 10 os ingressos vendidos. Pode sair junto com os amigos que também estão disponíveis às cinco da tarde para tomar um café e depois tomar uma cerveja, tudo isso no primeiro dia com cara de outono desse ano.