Eu fico constrangida a todo momento. Um senhor vem pedir um dinheiro para o café, eu não sei como agir. Fico constrangida. O bibliotecário me elogia, não sei o que fazer, não o agradeço, não sorrio, não nada. Fico constrangida. Uma velhinha escorrega e cai na minha frente, vou ajudá-la e, sem saber o que falar, eu vou ficar constrangida. Se o homem de muletas não consegue passar pela porta giratória do banco e provoca uma fila de espectadores, fico constrangida. Se tem alguém com vestido curto de veludo numa festa “passeio completo” eu fico constrangida. Alguém não aceita o panfleto do moço na rua XV, constrangida de novo. Uma amiga minha leva um fora, eu fico constrangida. Assistindo a uma peça de teatro ruim, fico constrangida. Quando um cego entra no ônibus, quando uma criança com nariz sujo sorri para mim, quando aquele mendigo com as espumas nos joelhos me estende a caixa de sapato com algumas esmolas, eu fico constrangida. Fico constrangida quando a minha vó comete erros de português. Quando o Léo Batista erra o texto do TP eu fico constrangida (mas só com o Léo Batista). Quando há duas pessoas me dirigindo a palavra e eu não sei para qual delas dar atenção, nossa, como isso me constrange! Quando meu irmão me diz que foi mal na entrevista e não conseguiu o estágio eu fico muito constrangida.
E depois de todos esses constrangimentos provocados pelas situações que me deixam sem saber o que dizer, frequentemente eu sinto vontade de abraçar.
Publicado em 05 de maio de 2005 às 21:51 por helena cogumelo
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“Mas dizei uma palavra e serei salvo.”