Antes do post:
Minha mais nova palavra preferida é “doidivanas”.
***
Tocava piano maravilhosamente. Deslizava entre as notas de marfim como quem caminha sobre as águas. Suas aptidões ao piano porém não foram suficientes para fazê-lo sobreviver.
Foi convidado para tocar para entreter passageiros de um transatlântico - magnatas do petróleo, xeques, empresários representantes da Yakuza, bilionários do ano da Forbes e as mais finas bucetas da alta classe. Pessoas de gosto e gorjeta. Quem sabe algum olheiro não o levaria para tocar em uma orquestra de verdade, estava cansado de protagonizar aqueles recitais mofentos na periferia de Dublin.
Cabine miserável. Não sabia como conseguiria continuar morando durante três meses nesse navio. Há dois meses sobrevivia sem compôr. Já não sabia onde guardar tantas notas. Escapavam-lhes das idéias, escorregavam por entre os dedos, por baixo da porta.
Começou colocando as gorjetas nos bolsos do fraque para apresentações de gala. No segundo dia de viagem já estava com os bolsos arregaçados como sacos de batatas. Decidiu então lascar o teto de sua cabine e esconder ali sua fortuna. Três semanas durou o esconderijo. Ao socar a última nota de cem dólares que cabia ali, imaginanou quantas notas existiriam naquele navio - onde será que os figurões guardavam suas fortunas? Armários? Arcas? Não, nada disso seria suficientemente grande para guardar o fruto das mesas de apostas do cassino transatlântico.
Sonhos entre notas e notas, faziam aumentar sua ambição e diminuir sua criatividade.
Uma noite caiu e, ao nascer do sol, o pianista não existia mais. Homem ao piano, homem ao mar. Sem documentos, sem memória, sem etiquetas nas roupas, sem marcas nos sapatos.
Os passagerios do transatlântico eram também fabricantes de crimes perfeitos.Caso do “homem do piano” intriga europeus
Folha de S. Paulo
17/05/2005
O mistério está comovendo desde ontem parte da Europa. O personagem tem entre 20 e 30 anos, cabelos loiros, olhos castanhos e 1m83 de altura. Foi encontrado em 7 de abril numa estrada britânica, à beira-mar.
Estava encharcado dentro de um terno preto e uma camisa de traje a rigor. Mostrava-se bastante assustado. Não pronunciou desde então uma única palavra. Mas é um grande pianista.
O “homem do piano” levou o serviço britânico de pessoas desaparecidas a publicar sua fotografia e interpelar salas de concerto européias que eventualmente já o tenham contratado.
Centenas de ligações telefônicas tentaram dar alguma pista, mas nenhuma foi até agora conclusiva, disse Ramanah Venkiah, diretor do hospital psiquiátrico em que o músico está internado.
Ele continua a expressar muito medo. Fez há dias a lápis um desenho perfeito de um piano de cauda. Não se separa de folhas de pentagramas manuscritas.
Acreditava-se que ele tivesse sido atirado de um transatlântico ao largo do litoral britânico, já que o encontraram na ilha de Sheppey, na região de Kent.
Estaria mudo porque não compreende o inglês, pensaram os médicos e os policiais. Trouxeram-lhe sem sucesso intérpretes de letão, polonês e lituano.
Suas aptidões musicais foram descobertas ao acaso, diz Michael Camp, assistente social de um hospital em Gillingham que por mais tempo o acompanhou. Havia no local um piano. O misterioso personagem sentou-se no banquinho e tocou sem parar por uma hora e meia.
Nenhum musicólogo ainda o ouviu. Os médicos e enfermeiros acreditam, no entanto, que ele produz música erudita desconhecida e de grande qualidade. Talvez seja o compositor.
Camp também deu detalhes que aprofundam o enigma. As roupas que o “homem do piano” vestia tinham um corte bastante refinado. Mas suas etiquetas haviam sido arrancadas. Impossível saber em que país ele as comprou. Ele não trazia dinheiro nem documentos de identidade.
Com o tempo a polícia também abandonou a hipótese de ele ter-se apresentado em alguma récita na região ou de ter perdido a razão depois do sepultamento de alguma pessoa querida. Locais de concertos e familiares de mortos recentes foram interrogados, mas tudo até agora em vão.
É até possível que ele tenha simulado a mudez e distúrbios psíquicos como forma de ganhar publicidade e reiniciar sua carreira como celebridade. Mas não é o que pensam os psiquiatras.
Karen Dorey-Rees, psiquiatra e também diretora do serviço público de saúde mental da região de Kent Oeste, diz estar ciente “de que é alguém bastante frágil, e estaríamos colocando em risco sua vida caso lhe déssemos alta e o deixássemos ir embora”, disse ela ao jornal “Independent”.
Publicado em 17 de maio de 2005 às 15:39 por helena cogumelo
Tem um certo nonchalance... irresistível!