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24 June 2005

Com versa


Tive umas das conversas que considero a que mais se aproximou de uma verdaderia conversa que já tive com um homem. Não uma seqüência de diálogos, onde cada um fica apenas esperando a sua vez de falar. Não. Aquilo poderia ilustrar a palavra conversa no dicionário iconográfico. O tipo de conversa que não acaba quando termina, uma conversa na qual nenhum assunto deixou de ser falado, apesar de muitos não terem sido ditos. Conversa que é apenas uma desculpa para formas mais sutis e mais verdadeiras de comunicação.

E foi apenas uma conversa de verdade.

15 June 2005

Quantas horas tem um plantão 24h?



zzzzzzzzz...


Eram seis e trinta e sete da manhã quando ele me disse pelo walk-talk “Agora acabou.” Me levantei daquele sofá, na ante-sala do centro cirúrgico no hospital Cajuru um pouco atordoada.

Vinte e quatro horas.

Um novo chiado no aparelho. “Venham aqui pessoal, um paciente acabou de arrancar o catéter enquanto voltava da anestesia.”

10 June 2005

A saga dos botões VI


algumas vezes os botões se reúnem para uma pequena partida de futebol. curioso que, ao contrário das rodadas do brasileirão, a pelada dos botões não tem dia fixo da semana para ocorrer. os botões frequentemente se acidentam irreparavelmente nos jogos, o que pode provocar sérios desfalques. muito comum nos torneios dos botões são os empréstimos de jogadores de outros times. os botões, apesar de conversarem muito entre si, não têm o costume de assistir seus colegas jogarem. o espetáculo acaba ficando mesmo é para os homens. depois das partidas, o time volta para o vestiário, geralmente de plástico transparente e não saem de lá até que uma outra partida seja disputada. agora é preciso fazer uma revelação que pode fazer muitas pessoas ficarem chocadas. a verdade que um botão me contou é que os goleiros do time... bem, os goleiros NÃO SÃO botões. eles são tijolinhos cheios de areia. é difícil encarar a realidade, mas os botões não têm vocação alguma para serem goleiros.

10 June 2005

A saga dos botões V


os botões são muito solitários, pois cada um tem sua casa. mas há um botão muito peculiar, que é botão e é casa ao mesmo tempo. é o botão mais bem resolvido com o qual já conversei (e cá entre nós, com esse eu converso bastante). todo mundo vive querendo esse botão. é batata. alguém levante a mão se achar que o seu botão não ainda não ouviu nenhuma proposta de ser abotoado. esses botões são muito tímidos, demoram pra se soltar, para conversar com estranhos. por isso a pior coisa que existe para um botão é ouvir uma proposta dessas. ele fica, digamos assim, acuado. o sentimento é mais ou menos como quando te oferecem e insistem para que você tenha um cartão de crédito. vamos fazer um cartão de crédito hoje? e o botão diz não, obrigado. é de graça! não. a primeira anuidade é grátis. não. mas veja as vantagens. não. e se você não quiser pagar anuidade é só cancelar no meio da utilização. não. quando finalmente desistem, basta que você passe novamente pela rua XV para que eles voltem a oferecer o cartão de crédito. afinal, quem sabe agora vai, não é mesmo? não queria ontem, mas hoje pode querer.

09 June 2005

A saga dos botões IV


adoro conversar no telefone, e o meu telefone, que antes era de discar, agora é de botão. tem muitos botões para eu conversar, principalmente quando não atendem ao meu telefonema. eu nunca desanimo e se a pessoa não atende, ou atende e não quer falar comigo, ou atende e finge que não me conhece ou atende e é engano, eu continuo a falar mesmo é com os botões do telefone. eles conhecem muitas coisas esses botões de telefone. sabem inclusive quem fica ligando para os outros na madrugada, meio bêbados de sono ou de pírulas - isso eles não sabem na verdade, que ninguém sai falando por aí se está bêbado de pírulas, de sono ou de manguaça mesmo. mas o interessante é conversar com eles enquanto a outra pessoa não atende. o tu.. tu.. do telefone vai tocando e eu imagino o telefone na casa da outra pessoa soando soando e ela no banheiro, no chuveiro, esperando o miojo ficar pronto. é uma desgraça quando você está esperando os três minutos do miojo e alguém liga. não dá nem pra dizer, olha liga daqui a três minutos, porque três minutos é muito pouco tempo. mas se você fica conversando o miojo vai esfriando e depois vira um grude, uma cola, uma gororoba que não dá pra encarar nem que a fome esteja digerindo seu próprio estômago. na verdade eu acho mesmo é que a parte mais emocionanate da ligação é esperar a outra pessoa atender e, enquanto espera, ficar elaborando possibilidades aqui com os meus botões. é mais emocionante porque quando a pessoa atende geralmente ela estava fazendo alguma coisa bem sem-graça, como assistir televisão ou dormir. e mesmo se estivesse fazendo alguma coisa interessante, não admitiria - ninguém admite que estava trepando, por exemplo. por isso eu gosto de falar com esses botões do telefone.

09 June 2005

A saga dos botões III


ainda conversando com os meus amigos botões, hoje conversei com um botão de rosa. ele me falou que é muito complicado ser botão de rosa, porque como se sabe as rosas têm espinhos e, dia sim, dia não, ele tem que cortar os espinhos que invadem sua casa. cada botão tem uma casa e a casa de um botão de rosa é bem pequena. o botão não consegue nem dormir direito. os botões de rosa são muito requisitados, e agora então no dia dos namorados, o botão está com os dias contados, precisamente três dias contados porque depois que se morre, não se consegue contar mais nada. se as pessoas mortas consiguessem contar, elas nos contariam como foi que morreram e então morrer não seria mais novidade. talvez o botão ainda tenha uma sobrevida, se a namorada for caprichosa e colocá-lo imadiatamente na água. mas o que acontece é que o namorado dá o botão de rosa e os namorados pensam em tudo, menos em colocar o botão na água e dar mais alguns dias de sobrevivência ao botão.

09 June 2005

A saga dos botões II


esses dias peguei um elevador e fui conversando com os botões do elevador. eles são todos uns neuróticos querem sempre ser apertados, até meio carentes, os coitados. mas quem se arrega mesmo é o botão do térreo, afinal todos passam mão nele. eles não gostam é quando tem ascensorista. eu converso muito com os botões, eles sim sabem conversar. já os ascensoristas são um verdadeiro desastre na comunicação.

09 June 2005

A saga dos botões


eu nunca paro de falar. sou uma tagarela. quando sento assim num banco de praça vôo para longe conversando com meus botões. e eles conversam muito sabe? os meus botões. dia desses eu perdi um deles que, coitado, ficou perdido pela cidade. não sabia nem pedir informações, nem conversar com as pessoas, porque ele só fala a língua dos botões, não fala a língua dos homens. talvez ele consiga falar a língua dos guarda-chuvas, porque de tão perdido o botão deve ter ido parar no limbo dos guarda-chuvas esquecidos. quando você esquece um guarda-chuva você nunca mais consegue encontrar. e quando você perde um botão é mais difícil ainda de reencontrá-lo. além de ser muito menor que um guarda-chuva, o botão cai e quica e rola pra debaixo daquela cômoda que você imagina estar chumbada no chão. mas não, a cômoda tem um pequeno vão e é bem lá que o botão vai se perder. é a perdição dos botões. onde será que é a minha perdição? em algum vão por aí, na verdade eu até sei onde é a minha perdição, mas não vou contar aqui pra vocês, que essas coisas a gente não conta por aí. então depois que o meu botão se perdeu, eu tive que trocar todos os outros botões da minha blusa, porque eu nunca iria encontrar aquele estilo de botão para repôr o coitado que se perdeu por aí. então todos os outros companheiros do meu botão perdido ficaram sem ocupação, desempregados. pra você ver como no caso dos botões, a perdição de um é o desemprego de todos.

08 June 2005

Cadê o Bradock?


Ontem o deputado estadual Aílton Araújo foi alvo do chamado seqüestro fantasma. Neguinho telefona APAVORANDO um seu fulano que encontrou na lista telefônica. Diz que sequestrou seu primo, irmão, tia, papagaio, ou que está com GERAL pra invadir a RESIDÊNÇA de seu fulano, caso não faça o depósito de X mil reais. Mas, não contavam com a astúcia de Bradock o DELEGADO-DEPUTADO-FODANCHÃO.

“Quando o bandido ligou de novo para cobrar o resgate, quem atendeu foi o colega parlamentar Mário Bradock, que já foi delegado de polícia. O bandido desconfiou que havia sido descoberto e desligou o telefone no meio da conversa.”
Leia reportagem

O Blogumelo teve acesso a uma fita com a gravação de uma extorsão de sequestro fantasma. Os caras têm a ginga da MALLANDRAGEM carioca. Confira trechos da conversa:

Bandido - Eu tô aqui com o filho do seu Fulano e se tu desligá a ligação, tu vai botá a vida dele em risco.
Vítima - Mas o seu Fulano não tem filho...
Bandido - Ai ó... eu sô aqui do grupo de extermínio, pistoleiro. Eu vô mandar geral invadir a casa do seu Fulano só por causa desse abuso do senhor agora. Pessoal vai invadir a casa dele e vai matá ele.

07 June 2005

Nós (aqui se referindo ao plural de nó)


O que é que eu tinha pra dizer mesmo?

***

Esqueci.

***

Ei, você ainda está aquí?
Pior eu, que não estou nem aí.

***

Lembrei!

Dois nós,
nós dois.

05 June 2005

Pra quê?


Jogo do Brasil com Robinho, Ronaldinho Gaúcho, Adriano e Kaká... só estrelas do futebol-arte, futebol-moleque, boniiiito de se ver. Show de dribles, um espetáculo.

Comemorando o terceiro gol, olho mais uma vez para a televisão. A tela dividia em duas. À direita um replay do gol de Zé Roberto. À esquerda um close do técnico paraguaio. Em slow motion, Aníbal Ruiz apreensivo com as mãos na cabeça, jogava os braços ao lado do corpo e deixava transparecer toda a sua decepção dos 3 x 0. Comovente.

Minha empolgação acabou ali. A decepção de um homem grisalho, em cadeia nacional, era algo que eu preferia não ter visto.

03 June 2005

Perímetro urbano do Reino Funghi


Enquanto meus pais não voltam da viagem pela América Latina, minha vida se passa tranquilamente no perímetro de uma quadra. Uma quadra do Pilarzinho é o suficiente. Não preciso de mais que isso.

Almoço no buffet Dom Wojtyla, e trabalho logo ali ao pé daquela antena. Um pouco mais à direita fica a minha casa.


...


Atentem para os talheres na mão do finado papa.
Para o Lielson, um clássico!