Domingão de sol, fui ao olho. Alguém me disse que teriam uns curtas de animação. Ninguém me disse que era preciso chegar cedo. Fiquei pra fora. Esperando a próxima sessão que seria dali a duas horas, segui naturalmente ao café recém-inaugurado do museu do olho.
Um café “bacanudo” com cores primárias, formas geométricas, estilo clean bauhausiano, contundente... Formas curvilíneas só na decoração Rococó das tortas na vitrine de doces. Poderiam inovar também na decoração das tortas, pensei, mas creio que ainda não inventaram o curso de decoração de bolos estilo clean bauhausiano, com cores primárias e formas geométricas, em VHS ou DVD chega em sua casa por apenas 12x de qualquer-coisa e noventa-e-nove-centavos. Curvas também haviam nas pessoas, mas formas orgânicas não faziam muito o estilo do café.
Sentei e pedi o cardápio e um expresso. Enquanto o café não vinha, observava as formas dos preços no cardápio. Tudo muito clean primário bauhausiano e geometricamente caro para quem está acostumado a pagar dois reais pra entrar no museu. Imaginei que poderia escutar alguma conversa interessante de um grupo de pessoas portando óculos de aro grosso e all stars. Mas ao invés de estilo clean bauhausiano e formas geométricas, conversavam sobre estilo indie americano e formas de emagrecimento rápido.
Resolvi olhar para fora. As pessoas estacionavam os carros seguiam dois fluxos. Aqueles que portavam cachorros com guias se encaminhavam invariavelmente para o gramadão. Aqueles que portavam pochetes, óculos escuros e sapatos mocassim se encaminhavam invariavelmente ao café. (Existiam também os poucos que chegavam a pé, portando mochilas e que se encaminhavam invariavelmente à bilheteria do museu, mas estes eram minoria e, bem, quem se importa com as minorias, além dos parênteses?)
No momento seguinte o café estava lotado e a bilheteria, vazia.
Será que o curador do museu já pensou em trazer parte do acervo para decorar essas paredes tão clean bauhausianas geométricas primárias do café?
Publicado em 09 de novembro de 2005 às 00:40 por helena cogumelo