Primeiro o motoqueiro, agora um aprendiz de chef de cuisine. Eles sempre têm codinomes. Quem não lembra do “juvenil”. Bom, pelo menos um aprendiz de chef de cuisine representa alguma coisa. É uma promessa de alguma sofisticação na minha vida. Se ele consegue fazer uma sobremesa com carambola e tomilho, vai conseguir transformar o enorme abacaxi que se tornou a minha vida em uma gloriosa quiche, ou algo do gênero.
A primeira briga séria já aconteceu. Terceira semana. Foi quando o chamei de xuxu. Xuxu não coração, é chuchu. Mas xuxu é mais carinhoso. É, mas xuxu não dá nem caldo, não dá pra cozinhar, não rende um jantar. Eu disse que em francês rende um suflê e o nome é lindo: suflê aux christophines. Imaginei indo a Paris, sentada à mesa de um bistrô. S’il vous plaît, um soufflé aux christophines et um caraf d’eau. Merci. De repente ele surge e critica o prato, diz que está sem gosto e o sonho puf se desfaz. Ele se irritou. Fiz de propósito. Ele é um aprendiz de chef de cuisine que não sabe francês. Quer dizer, sabe só nomes de pratos, mas não sabe falar. Eu também não sei francês, mas não sou eu quem quer ser chef de cuisine. Só quero andar de limousine.
Fico imaginando que nunca vamos poder ir a buffetts do centro da cidade sem isso se tornar uma experiência traumática para ele. Ele implica com os estrogonofes. Sempre desconfia de que a carne não foi flambada direito. Eu já nem pego estrogonofe que é pra evitar uma hecatombe. Só o meu amigo que sabe a origem das palavras sabe que uma hecatombe é algo realmente muito ruim, principalmente quando se fala de estrogonofe. Estrogonofe de frango então, para ele é uma falácia, um prato que deveria ser condenado ao ostracismo.
Quando fomos ao Tuba’s e eu pedi uma porção de fritas, nem gosto de lembrar. Comeu uma batata e disse que aquilo não eram fritas, que a batata estava com gosto de batata brotada. Eu não senti diferença. Estava brilhante de tão gordurosa. E eu que já estava pra lá de Bagdá me atirei na tal porção de brotadas fritas.
Agora resolvi. Só consumo algo na presença dele quando foi ele mesmo que preparou. Pra evitar discussões. Aí elogio e ele fica dizendo que não conseguiu encontrar o tal açafrão verdadeiro, então fez com o falso mesmo, que o gosto é diferente, um pouco mais adstringente, que dá pra colocar também iogurte, mas ele sabia que eu não ia gostar se colocasse iogurte, que a origem do prato na verdade era turco, mas sofreu influência também dos indianos e repetia tudo aquilo que aprendeu na última aula de história dos alimentos.
Publicado em 30 de setembro de 2007 às 00:19 por helena cogumelo